IGREJA ORTODOXA DA DIÁSPORA GREGA NO BRASIL COMUNIDADE MONÁSTICA SÃO JOÃO CRISÓSTOMO MONASTÉRIO SÃO JOÃO CRISÓSTOMO-ABADIA
Oração do Candidato a ser Monge
Abras para mim urgente os seus braços paternos, porque, gastei a minha vida à toa. Estou acreditando agora na sua riqueza infinita Salvador, e na sua misericórdia, não esqueças agora o meu pobre coração. Porque com muita piedade perante o Senhor, estou clamando piedosamente com alta voz, e perdoe-me Pai, porque sou pecador perante o Senhor e o Céu.
EXORTAÇÃO DE SÃO PACÔMIO SOBRE O RANCOR DE UM MONGE
Pacômio, nascido em 292 dC, provinha de família pagã e converteu-se ao Cristianismo quando contava com 20 anos de idade, seguindo educação ascética. Em 320, fundou seu primeiro mosteiro em Tabenesi, na Tebaída (Alto Egito), dando início ao monacato cenobita (comunitário), que perdura até os nossos dias. Morreu em 346, deixando como obras a Regra Monástica [com 194 artigos], diversas exortações a seus monges e 11 cartas a abades e irmãos religiosos.
Nesta página, apresentamos uma de suas exortações aos monges, tratando do perigo do rancor. Como é sabido, os primeiros monges se isolavam no deserto; com Pacômio, surgem as primeiras comunidades de monges, que se caracterizam pela partilha total dos bens, oração comum, observância à mesma Regra, trabalho manual e obediência absoluta ao abade.
Agradeço ao nosso tradutor voluntário, José Carlos Romano, pela generosidade em traduzir este texto. Sem a sua valiosa colaboração este maravilhoso texto não estaria disponível a todos nós. Que Deus o guarde e proteja!
Exortação pronunciada por nosso mui venerável santo padre Pacômio, o santo arquimandrita, em motivo de um irmão que guardava rancor contra outro. Em tempos do abade Ebonh, que havia levado aquele irmão a Tabennesi, [Pacômio] lhe dirigiu estas palavras na presença de outros padres anciãos, para sua grande alegria, na paz de Deus!
Desçam sobre nós suas santas bênçãos e as de todos os santos! Que todos possamos ser salvos! Amém.
Filho meu, escuta e seja sábio (Prov. 23,19), recebe a verdadeira doutrina. Existem, com efeito, dois caminhos.
Seja obediente a Deus como Abraão, que deixou sua terra, marchou ao exílio e viveu sob uma tenda com Isaac na terra prometida, como em terra estrangeira; obedeceu, humilhou-se a si mesmo, recebeu uma herança; inclusive foi posto à prova com respeito a Isaac: foi valente na prova e ofereceu a Isaac em sacrifício a Deus. Por isso Deus o chamou: "Meu amigo" (Tg. 2,23).
Receba aquele exemplo de bondade de Isaac, quando escutou a seu pai, e lhe esteve submetido até o sacrifício, como cordeiro inocente.
Receba assim mesmo o exemplo da humildade de Jacó, sua obediência, sua perseverança, até converter-se em luz que vê ao Pai do universo; foi chamado Israel.
Recebe aquele exemplo da sabedoria de José e sua submissão. Luta na castidade e nesse serviço até reinar.
Filho meu, imita a vida dos santos e pratica suas virtudes. Desperta, não sejas negligente, incita a teus concidadãos, dos quais te constituíste o garante (Prov. 6,3); levanta-te dentre os mortos e Cristo te iluminará (Ef. 5,14), e a graça se infundirá dentro de ti.
A paciência, com efeito, te revela todas as graças. Os santos foram pacientes e conseguiram as promessas. O orgulho dos santos é a paciência. Sê paciente para sejas contado nas filas dos santos, confiando que receberás uma coroa incorruptível.
Um mau pensamento? Suporta-o com paciência, até que Deus te dê a calma. O jejum? Persevera com firmeza. A oração? Sem descanso, na tua habitação entre tu e eu. Um só coração com teu irmão; a virgindade em todos os membros, virgindade em teus pensamentos, pureza de corpo e pureza de coração; a cabeça inclinada e o coração humilde, bondade no momento da cólera.
Se um pensamento te oprime, não te desalentes; suporta-o com valor dizendo: "Todos me rodearam, porém eu, em nome do Senhor, os rechacei" (Sal 117,11). De improviso te chega o auxílio de Deus; os alijas de ti; Deus te protege e a glória divina caminha contigo, porque a coragem caminha com o que é humilde e tu serás saciado como o deseja tua alma (Is 58,11). Os caminhos de Deus são a humildade de coração e a bondade. Pois está escrito: "A quem cuidarei senão ao humilde e ao pacífico?" (Is 66,2). Se caminhas pelas sendas do Senhor, ele te custodiará, te dará força, te acumulará de ciência e de sabedoria, pensará em ti em todo tempo, te liberará do diabo e, em tua morte, te dará a graça em Sua paz.
Filho meu, te rogo: vigia, seja sóbrio, para conhecer aqueles que montam armadilhas contra ti. O espírito da maldade e da incredulidade teimam em caminhar juntos; o espírito da mentira e da fraude caminham juntos; o espírito da avareza, da cobiça e o do perjúrio, aquele da desonestidade e o da inveja caminham juntos; o espírito da vaidade e o da voracidade caminham juntos; o espírito da fornicação e o da impureza caminham juntos; o espírito da inimizade e o da tristeza caminham juntos. Desgraçada a pobre alma em que habitarem (estes vícios) e a dominarem! A essa alma, a apartam de Deus, porque ela está em seu poder, vai daqui para ali até que cai no abismo do inferno.
Filho meu, obedece-me: não sejas negligente, não concedas o sonho a teus olhos, nem repouso a tuas pálpebras, para que possas escapar das armadilhas como uma gazela (Prov. 6,4-5). Filho meu: muitas vezes, desde minha juventude, quando estava no deserto, todos os espíritos me molestavam, me afligiam a tal ponto que meu coração se deprimia, ao extremo de pensar que não podia resistir às ameaças do dragão. Me atormentavam de todas as formas. Se eu prosseguia, excitava contra mim a (seus espíritos) que me faziam a guerra; sem motivo me retirava, me afligia com sua insolência; muitas vezes meu coração se perturbou, ia de um lado a outro e não encontrava quietude. Sim, em troca, fugia para perto de Deus derramando grimas com humildade, com jejuns e noites de vigílias; então o adversário e todos seus espíritos caíam impotentes frente a mim; o ardor divino vinha a mim e de repente reconhecia o auxilio de Deus, porque em sua clemência dá a conhecer aos filhos dos homens sua força e sua bondade.
Filho meu: não condenes a nenhum homem; se vês que algum é elogiado, não digas: "Este já recebeu sua recompensa". Cuida-te deste pensamento pois é muito malvado. Deus não ama a quem louva a si mesmo e odeia a seu irmão. Pois quem diz a si mesmo: "Eu sou", quando nada é, se engana a si mesmo (Gál. 6,3). Quem poderá ajudá-lo se é orgulhoso, se apresenta do mesmo modo em que se apresenta a Deus dizendo: "Nada é como eu" (Ex. 9,14)? Ouvirás em seguida tua própria reprovação: descerás aos infernos, serás arrojado com os mortos; debaixo de ti estará a podridão e te cobrirão os vermes (Is. 14,11.15.19). Enquanto ao homem que adquiriu a humildade, se julga só a si mesmo, dizendo: "Meus pecados sobrepassam os dos demais", não julga a nada, não condena a nada. Quem és tu para julgar a um servo que não é teu? Ao que está caído, com efeito, seu Senhor tem o poder de fazê-lo levantar (Rom. 14,4). Vigia sobre ti mesmo, filho meu, não condenes a nenhum homem, gosta de todas as virtudes e custodia-as.
Se és estrangeiro, permanece a parte, não busques refúgio próximo de alguém e não te mescles em seus assuntos. Se és pobre, não te desanimes por nenhuma coisa, para que não te seja dirigido a reprovação: "A pobreza é má na boca do ímpio" (Se. 13,24-30). Nem deves ouvir que se te diz: "Se padecem de fome se entristecerão e amaldiçoarão ao chefe e aos anciãos" (Is 8,21). Cuida para que não te façam a guerra porque te falta qualquer coisa a respeito das necessidades do corpo, com motivo da comida. Não te desanimes, sê paciente.
Certamente Deus trabalha no segredo. Pensa em Habacuc na Judéia e Daniel na Caldéia. A distância que os separava era de quarenta e cinco estádios; e ademais Daniel, entregue como alimento às feras, estava no fundo da fôsso, e contudo (o profeta) o proveu com comida. Pensa em Elias no deserto e na viúva de Sarepta; esta estava oprimida pelo flagelo da carestia e o tormento da fome, e em tal indigência não foi pusilânime; lutou, venceu e obteve o que Deus lhe havia prometido; sua casa desfrutou de abundância em tempo de carestia. Não é certamente prodigalidade dar pão em tempo de abundância e não é pobreza estar desalentado na indigência. Está escrito, com efeito, sobre os santos: "Estavam necessitados, atribulados e afligidos" (Heb. 11,37), porém, se davam gloria em suas atribulações. Se és perseverante na luta segundo as Escrituras, não sofrerás nenhuma escravidão, como está escrito: "Que nada os engane em questão de comida e de bebida ou a respeito das festas, novilúnios ou sábados. Estas coisas são as sombras daquelas futuras" (Col. 2,16-17).
Medita em todo momento as palavras de Deus, persevera na fadiga, da graças em todas as coisas, fuja dos aplausos dos homens, ama a quem te corrige no temor de Deus. Que todos te sejam de proveito, para que tu sejas de proveito a todos. Persevera em tua obra e em palavras de bondade. Não dês um passo adiante e outro atrás, a fim de que Deus não deixe de amar-te. A coroa, com efeito, será para quem haja perseverado. Obedece sempre mais a Deus, e ele te salvará.
Quando te encontres no meio de teus irmãos não provoques a brincadeira. Sadrac, Mesac e Abed-Negó rechaçaram as diversões de Nabucodonosor; por isso este não pôde convencê-los com as melodias de seus instrumentos, nem enganá-los com as comidas de sua mesa. E assim eles sufocaram aquela chama que se elevava a uma altura de quarenta e nove cotovelos; não foram dissolutos com quem era dissoluto, e sim foram retos com quem era reto, quer dizer, com Deus. Por isso Deus os constituiu senhores de seus inimigos. Também Daniel, por sua parte, não obedeceu ao malvado pensamento dos Caldeus, por isso se converteu em um grande eleito e foi considerado vigilante e sábio, e fechou as bocas dos leões selvagens (Heb. 11,33).
Agora, filho meu, se pões a Deus como tua esperança, Ele será teu auxílio na hora da angústia. Quem se acerca a Deus deve crer que Ele existe e que recompensa aqueles que o buscam (Heb. 11,6). Estas palavras foram escritas para nós, para que creiamos em Deus, para que jovens e anciãos, lutemos com jejuns, orações e outras obras religiosas. Nem sequer a saliva que se seca em tua boca durante o jejum, esquecerá de Deus, e certamente encontrarás tudo isto na hora da angústia. Humilha-te em tudo, controla-te no falar, inclusive se compreendeste todas as coisas; não te acostumes a insultar, e sim suporta com alegria toda prova. Se conhecerás a honra que resulta das provas não rezarias para ser livrado, porque é bom para ti orar, chorar, suspirar, até ser salvo, antes de relaxar teu coração e cair prisioneiro. Ó homem, que fazes em Babilônia? Envelheceste em terra estrangeira (Bar. 3,10), porque não te submeteste à prova e não trabalhas com retidão adiante de Deus. Por isto, irmão, não relaxes teu coração.
Talvez, sejas um pouco negligente, porém teus inimigos não costumam dormir, nem são negligentes em colocarem armadilhas noite e dia. Por isso não busques coisas grandes para não serdes humilhado e alegrar assim a teus inimigos. Busca a humildade, porque quem se gaba será humilhado e quem se humilha será exaltado (Mat. 23,12; Luc. 18,14). E se não estás em condições de bastar-te a ti mesmo, uni-te a outro que trabalhe segundo o evangelho de Cristo e avançarás com ele. Escuta o bem, submete-te a quem escuta; sede forte, para serdes chamado Elias; o bem obedece a quem é forte, a fim de ser chamado Eliseu, que por haver obedecido a Elias recebeu dupla parte de seu espírito.
Se queres viver em meio dos homens, imita a Abraão, Lot, Moisés e Samuel. Se desejas viver no deserto, eis aqui todos os profetas que te precederam. Imita àqueles que vagaram pelo deserto, pelos vales e as cavernas da terra (Heb. ll,38.37), pobres, atribulados e afligidos. Está escrito também: "A sombra de quem está sedento e o Espírito dos homens que suportaram a violência te abençoarão" (Is. 25,4). Ademais, o ladrão sobre a cruz proferiu uma palavra, o Senhor perdoou seus pecados e o recebeu no paraíso. Então, que grande honra receberás se és paciente na prova, ou diante do espírito de fornicação, ou diante do espírito de orgulho, ou bem frente a qualquer outra paixão! Tu lutas contra as paixões diabólicas, não para segui-las, e Jesus te dará o que te há prometido. Cuida-te da negligência, porque ela é a mãe de todos os vícios.
Filho meu, fuja da concupiscência, porque escurece a mente e não permite conhecer o mistério de Deus. Seja estranho à linguagem do espírito: te impede levar a cruz de Cristo, e não deixa que teu coração esteja sóbrio para louvar a Deus. Cuida-te dos apetites do ventre, que te fazem alheio aos bens do paraíso. Cuida-te da impureza: ela provoca a ira de Deus e de seus anjos.
Filho meu, volta-te até Deus e ama-o; fuja do inimigo, e odeia-o; assim as bênçãos de Deus descerão sobre ti, e poderás herdar a benção de Judá, filho de Jacó. Está escrito, com efeito: "Judá, teus irmãos te abençoarão, tuas mãos estarão sobre a espada de teus inimigos, e os filhos de teu pai te servirão" (Gen. 49,8). Cuida-te do orgulho, porque é o princípio de todo o mal. O começo do orgulho é afastar-se de Deus e o que lhe segue é o endurecimento do coração. Se te cuidas disto, teu lugar de repouso será a Jerusalém celestial. Se o Senhor te ama e te dá glória, cuida-te de exaltar teu coração; antes bem, persevera na humildade e habitarás na glória que Deus te deu. Vigia sobre ti, porque "ditoso quem seja encontrado velando; será constituído sobre os bens de seu Senhor" (Mat. 24,46-47), e entrará cheio de alegria no Reino. Os amigos do esposo o amaram porque o encontraram cuidando da vinha.
Filho meu, seja misericordioso em todas as coisas, porque está escrito: "Esforça-te por apresentar-te diante de Deus como um homem provado, um trabalhador irrepreensível" (2Tim. 2,15). Volta-te até Deus como o que semeia e colhe, e armazenarás em teu silo os bens de Deus. Não ores ostensivamente como aqueles hipócritas, e sim renuncia a teus desejos, trabalha para Deus obrando assim por tua própria salvação. Se te fere uma paixão: amor pelo dinheiro, inveja, ódio e outras paixões, vela sobre ti, tenha um coração de leão, um coração valente, combate as paixões, destrua-as como a Sijón, Hog e todos os reis dos Amorreus. O Filho amado, o Unigênito, o rei Jesus, combate por ti para que possas herdar as cidades inimigas. Rechaça todo orgulho longe de ti e seja valente. Olha: quando Jesus, o filho de Navé, foi valoroso, Deus lhe entregou em suas mãos os seus inimigos. Se és pusilânime, te fazes estranho a lei de Deus; a pusilanimidade te abarrota de pretextos para ceder à preguiça, à incredulidade e à negligência, até que pereças. Tenha um coração de leão, grita também tu: "Quem nos separará do amor de Deus?" (Rom. 8,35), e: "Ainda que meu homem exterior se desmorone, o interior se renova dia a dia" (2Cor 4,16).
Se habitas no deserto, luta com orações, jejuns e mortificacões. Se vives em meio dos homens, seja prudente como as serpentes e singelo como as pombas (Mat. 10,16). Se alguém te maldiz, suporta-o de bom ânimo, espera em Deus que realizará o que é bom para ti. Tu não maldigas à imagem de Deus, pois Deus te disse: "A quem me glorifique, eu o glorificarei, a quem me maldizer eu o maldirei" (1Sam. 2,30). E se te louvam, não te alegres, porque está escrito: "Pobres de vocês se todos os homens os louvam" (Luc. 6,26). Também foi dito: "Ditosos vocês quando os insultem, os persigam, e rechacem seu nome como maldito" (Luc. 6,22). Do mesmo modo, nossos padres Barnabé e Paulo, depois de serem louvados, rasgaram suas vestes e se entristeceram, porque aborreciam a glória dos homens. Também Pedro e João, depois de haver sofrido ultrajes no Senádrio, saíram plenos de alegria porque haviam merecido ser ultrajados pelo santo nome do Senhor. Tinham sua esperança na glória dos céus.
Porém tu, filho meu, foge das comodidades deste mundo, para estardes na alegria do mundo futuro; não sejas negligente desejando passar dia após dia, não seja que te venham a buscar antes de que tu o advirtas e conheças a angústia; e os servidores do anjo da morte te rodeiem, te raptem cruelmente e te levem a suas moradas de trevas, plenas de terror e angústia. Não te aflijas quando fores ultrajado pelos homens, e sim aflija-te e suspira quando pecardes - este é o verdadeiro ultraje - e quando sejas persuadido por teus pecados.
Te rogo insistentemente a odiar a vaidade. A vaidade é a arma do diabo. Deste modo foi enganada Eva. (O diabo) lhe disse: "Comam do fruto da árvore, se abrirão teus olhos e serão como deuses" (Gen. 3,5). Ela escutou pensando que era verdade, buscou ter a glória da divindade e lhe foi tirada inclusive aquela glória humana. Ou mesmo tu, se segues a vaidade, ela te fará alheio à glória divina. Porém, para Eva não havia nada escrito a fim de adverti-la sobre esta guerra, antes que o diabo a tentasse; para isto vem o Verbo de Deus e tomou carne da Virgem Maria: para liberar a estirpe de Eva. Tu, em troca, em respeito a a esta guerra, te instruíste nas Santas Escrituras, pelos santos que te precederam. Por isso, irmão meu, não digas: "Não havia ouvido falar, não me haviam informado nem ontem nem antes de ontem", pois está escrito, com efeito: "O clamor de sua voz se difundiu por toda a terra, suas palavras chegaram até os confins do mundo" (Sal. 18,15; Rom. 10,18). Agora, pois, se és louvado, refreia teu coração e dá gloria a Deus. E se, em troca, te insultam, dá glória a Deus e agradece-lhe de ser digno da sorte de seu Filho e de seus santos. Se clamaram "impostor" a teu Senhor, "loucos" aos profetas, "tontos" a outros, quanto mais nós, (que somos) terra e cinza, não devemos entristecer quando somos caluniados. Este é o caminho para que tenhas vida. Se, em troca, és tu negligência a que te precipita, então chora e geme. Com efeito: "Aqueles que se criavam entre púrpura, agora estão cobertos de sujeira" (Lam. 4,5), porque descuidaram da lei de Deus e seguiram seus caprichos. Agora, filho meu, chora diante de Deus em todo tempo, porque esta escrito: "Ditoso o que elegeste e tomaste contigo!" (Sal. 64,5). "Puseste teu coração e teus pensamentos no vale do pranto, lugar que tu preparaste" (Sal 83,6-7).
Adquire a inocência, seja como essas ovelhas inocentes, que se lhes tosquiam a lã e não dizem nenhuma palavra. Não vás de um lugar a outro dizendo: "Aqui ou lá encontrarei a Deus". Deus disse: "Eu sou pleno no céu, Eu sou pleno na terra" (Jer. 23,24). E de novo: "Se passardes através da água, Eu estarei contigo" (Is. 43,2). E: "Os rios não te submergirão" (Is. 43,2). Deves saber, filho meu, que Deus vive dentro de ti, para que permaneças em sua lei e em seus mandamentos. O ladrão estava na cruz e entrou no paraíso. Judas, ao contrário, era um dos apóstolos e traiu ao seu Senhor. Rajab nascia na prostituição e foi contada entre os santos; Eva, em troca, no paraíso foi enganada. Jó sobre a sujeira foi comparado a seu Senhor; Adão no paraíso se desviou do preceito. Os anjos estavam no céu e foram precipitados ao abismo; Elias e Henoc foram conduzidos ao reino dos céus. Em todo lugar, portanto, busquem a Deus, busquem em todo tempo sua força (1Cron. 16,11; Sal. 104,4). Buscai-o como Abraão que obedeceu a Deus, ofereceu em sacrifício seu filho e por isto foi chamado "meu amigo". Buscai-o como José, que lutou contra a impureza até reinar sobre seus inimigos. Buscai-o como Moisés, que seguiu a seu Senhor; ele o constituiu legislador e lhe fez conhecer sua imagem. Buscou Daniel e (Deus) lhe deu a conhecer grandes mistérios e o salvou das bocas dos leões. O buscaram os três santos e o encontraram no forno ardente. Jó se refugiou nele, e ele lhe curou suas feridas. O buscou Susana, e (Deus) a salvou das mãos dos ímpios. O buscou Judite, e o encontrou no toldo de Holofernes. Todos estes o buscaram, e ele os salvou, e também salvou aos outros.
E quanto a ti, filho meu, até quando serás negligente? Qual é o limite de tua negligência? Este ano é como o ano passado e hoje é como ontem. Enquanto sejas negligente, não fará nenhum progresso para ti. Seja sóbrio, eleva teu coração. Deverás comparecer diante do tribunal de Deus e render contas do que tenhas feito no segredo e do que fizeste publicamente. Se vais a um lugar onde se combate a guerra, a guerra de Deus, e se o Espírito de Deus te exorta: "Não adormeças neste lugar, porque existem insídias", e o diabo por sua parte te sussurra: "Qualquer coisa que te suceda, é a primeira vez, ou se vistes isto ou aquilo, não te aflijas"; não escutes seus astutos discursos. Não seja que o Espírito de Deus se retire de ti e te desanime, que perdas a força como Sansão, que os estrangeiros te atem com cadeias e te levem à roda de moer, quer dizer, ao ranger de dentes, e te convertas para eles em um objeto irrisório, é dizer que se enganem de ti e que já não conheças mais o caminho até tua cidade, porque te tiraram os olhos por haver aberto teu coração a Dalila, é dizer ao diabo que te capturou com o engano, porque não escutaste os conselhos do Espírito. Visto também o que lhe sucedeu a um homem valente como David; felizmente em seguida se arrependeu a respeito da mulher de Urias. Está escrito assim mesmo: "Viram minha ferida, temam" (Jó 6,21).
É aqui que aprendeste que Deus não lhes poupou (provas) aos santos. Vigia, então, sabes as promessas que fizestes, fuja da arrogância, arranca de ti mesmo ao diabo para que ele não te arranque os olhos da tua inteligência e te deixe cego, de modo que não conheças mais o caminho da cidade, o lugar onde vives. Reconhece de novo a cidade de Cristo, dá-lhe glória porque morreu por ti.
Por que quando um irmão te fere com uma palavra, te enojas, te comportas como uma hera? Acaso não recordas que Cristo morreu por ti? E quando teu inimigo, isto é o diabo, te sussurra alguma coisa, inclinas teu ouvido até ele para que te derrame sua maldade, lhe abres teu coração e absorves o veneno que te deu. Desditado! Este é o momento de transformar-te em uma fera ou ser como o fogo, para queimar toda sua maldade! Devias ter náuseas e vomitar a fédida iniquidade; que o veneno não penetre dentro de ti e pereças! Ó homem, não suportaste uma pequena palavra dita por teu irmão. Porém, quando o inimigo busca devorar tua alma, então, que fizeste? Com ele tiveste paciência?
Não, querido meu, não se deverá lamentar tua situação, posto que em vez de um ornamento de ouro sobre a cabeça, se te raspará a cabeça a causa de tuas obras (Is. 3,24). Vigia mais bem sobre ti, suporta alegremente a quem te despreza, seja misericordioso com teu irmão, não temas os sofrimentos do corpo.
Filho meu, presta atenção às palavras do sábio Paulo quando disse: "Me esperam cadeias e tribulações em Jerusalém, porém não justifico minha alma com nenhuma palavra sobre o modo de acabar minha carreira" (At. 20,23-24); e: "Estou disposto a morrer em Jerusalém por ele, em nome do meu Senhor Jesus Cristo" (At 21,13). Nem o sofrimento, com efeito, nem a prova, impedirão aos santos alcançar ao Senhor. Tem confiança! Sê valente! Acaba com a covardia diabólica! Corre melhor depois da coragem dos santos. Filho meu, por que foges de Adonai, o Senhor Sabaoth, e recais na escravidão dos Caldeus? Por que dás de comer a teu coração em companhia dos demônios?
Filho meu, cuida-te da fornicação, não corrompas os membros de Cristo. Não obedeças aos demônios. Não faças dos membros de Cristo, membros de uma prostituta (1Cor. 6,15). Pensa na angústia do castigo, põe diante de ti o juízo de Deus, foge de toda concupiscência, despoja-te do homem velho e de suas obras e reveste-te do homem novo (cf. Col. 3,9). Pensa na angústia (que experimentarás) no momento de sair deste corpo.
Filho meu, refugia-te aos pés de Deus! É ele quem te criou e por ti padeceu estes sofrimentos. Disse, com efeito: "Ofereci minhas costas aos que me feriam e minhas faces aos que me golpeavam, não retirei minha cara à ignomínia dos que me cuspiam" (Is. 50,6). "Ó homem, de que te serve fazer o caminho até o Egito para beber a água de Geón, que está contaminada?" (Jer. 2,18). Em que te beneficiam estes pensamentos turbulentos, até o extremo de sofrer tais penas? Converta-te, melhor, e chora sobre teus pecados. Está escrito, com efeito: "Se fazem uma oferta por seus pecados, suas almas terão uma descendência que viverá por muito tempo" (Is. 53,10).
Ó homem, tens visto que a transgressão é uma coisa má, e quanto sofrimento e angústia engendra o pecado. Pronto, foge, ó homem, do pecado, pensa em seguida na morte. Está escrito: "O homem sensato trata duramente o pecado" (Prov. 29,8), e: "O rosto dos ascetas resplandecerá como o sol" (Mat. 13,43; Dan. 12,3). Ajusta-te também de Moisés: "Preferiu sofrer com o povo de Deus, antes que gozar das delícias momentâneas do pecado" (Heb. 11,25). Se amas o sofrimento dos santos, eles serão teus amigos e intercessores diante de Deus e ele te concederá todas tuas justas petições, pois levaste tua cruz e seguiste ao teu Senhor.
Não busques um posto de honra entre os homens, para que Deus te proteja contra as tempestades que tu não conheces e te estabeleça em sua cidade, a Jerusalém celestial. "Examina tudo e permaneça com o que é bom" (1Tes. 5,21). Não sejas altaneiro frente à imagem de Deus. Vigia sobre tua juventude, para velar sobre tua velhice. Que não devas experimentar vergonha ou reprovações no vale de Josafá, ali onde todas as criaturas de Deus te verão e te repreenderão, dizendo: "Sempre havíamos pensado que eras uma ovelha e aqui, em troca, constatamos que és um lobo! Vês agora ao abismo do inferno, arroja-te no seio da terra" (Is. 14,15). Que grande vergonha! No mundo eras louvado como um eleito, porém quando chegaste ao vale de Josafá, ao lugar do juízo, te viram desnudo, e todos contemplaram teus pecados e tua imundície expostos diante de Deus e dos homens. Pobre de ti naquela hora! Para onde voltarás teu rosto? Abrirás acaso tua boca? Que dirás? Teus pecados estão impressos sobre tua alma negra como um silício. Que farás então? Chorarás? Tuas lágrimas não serão recebidas. Suplicarás? Tuas súplicas não serão recebidas, porque não tem piedade aqueles aos quais te entregaram. Pobre de ti naquela hora, quando ouvir a voz severa e terrível: "Os pecadores, vão ao inferno" (Sal. 9,18), e também: "Apartem-se de mim malditos, ao fogo eterno que foi preparado para o diabo e seus anjos" (Mat. 25,41). E também: "Aos que cometeram transgressões eu os detestei" (Sal. 100,3). "Apagarei da cidade do Senhor a todos aqueles que fazem o mal" (Sal. 100,8).
Filho meu, usa deste mundo com circunspecção, avança considerando-te nada, segue ao Senhor em todas as coisas para estar seguro no vale de Josafá. Que o mundo te olhe como a um daqueles que foram depreciados; a fim de que no dia do juízo, em troca, tu sejas encontrado revestido de glória! E não confies a nada teu coração no que tocar ao descanso de tua alma, e sim confia todos teus desejos ao rei e ele te sustentará (Sal. 54,23). Veja a Elias, confiou no Senhor na torrente de Querit e foi alimentado por um corvo.
Cuida-te atentamente da fornicação. Esta feriu e fez cair a muitos. Não te faças amigo de um jovem. Não corras atrás das mulheres. Fuja da complacência do corpo, porque as amizades inflamam como chamas. Não corras atrás de nenhuma carne, porque se a pedra cai sobre o ferro, a chama se inflama e consome todas as substâncias. Refugia-te sempre no Senhor, senta-te à sua sombra, porque "quem vive sob a proteção do Altíssimo, habitará à sombra de Deus do céu" (Sal. 90,1), e "não vacilará nunca" (Sal. 124,1). Adere ao Senhor e que suba ao teu coração o pensamento da Jerusalém celestial; estarás sob a bênção do céu e a glória de Deus te custodiará.
Vigia com toda solicitude teu corpo e teu coração. "Busca a paz e a pureza" (Heb. 12,14), que estão unidas entre si, e verás a Deus. Não tenhas disputas com nada, porque quem está em alguma disputa com seu irmão, é inimigo de Deus e quem está em paz com seu irmão está em paz com Deus. Não aprendeste agora que nada é maior que a paz que conduz ao amor mútuo? Inclusive, se estás livre de todo pecado, porem és inimigo de teu irmão, te fazes estranho a Deus; está escrito, com efeito: "Busquem a paz e a pureza" (Heb. 12,14), porque estão unidas entre si. Está escrito assim mesmo: "Ainda que tivesse toda a fé como para mover montanhas, se não tenho a caridade do coração, de nada me serviria" (1Cor. 13,2-3). A caridade edifica (cf. 1Cor 8,1). "Que coisa poderia ser purificada da impureza?" (Eclo. 34,4). Se sentes em teu coração ódio ou inimizade, onde está tua pureza? O Senhor disse por Jeremias: "Diriges a teu próximo palavras de paz, porém há inimizade em teu coração; falas amavelmente a teu próximo, porém há inimizade em teu coração ou alimentas pensamentos de inimizade. Contra isto não deverei encolerizar-me? - diz o Senhor. De um pagão como este minha alma não deverá vingar-se?" (Jer. 9,5-9). É como se dissesse: "O que é inimigo de seu irmão, esse é um pagão, porque os pagãos caminham nas trevas, sem conhecer a luz". Assim, quem odeia a seu irmão caminha nas trevas e não conhece a Deus. O ódio e a inimizade, com efeito, cegaram seus olhos e não vê a imagem de Deus.
O Senhor nos mandou amar a nossos inimigos, abençoar aos que nos maldizem e fazer o bem aos que nos perseguem. Em que perigo nos encontramos então, se nos odiamos uns aos outros, (se odiamos) a nossos membros-irmãos unidos a nós, os filhos de Deus, renovados da verdadeira vida, ovelhas do rebanho espiritual reunidas pelo verdadeiro pastor, o Unigênito de Deus, que se ofereceu em sacrifício por todos nós! Por esta obra grandiosa o Verbo vivente padeceu esses sofrimentos. E tu, ó homem, a odeias por inveja e vaidade, por avareza ou por arrogância? Assim, o inimigo te desencaminhou para fazer-te estranho a Deus. Que defesa apresentarás diante de Cristo? Ele te dirá: "Odiando a teu irmão, odeias a mim". Irás, pois, ao castigo eterno, porque alimentaste a inimizade até teu irmão; em troca, teu irmão entrará na vida eterna, porque se humilhou diante de ti por causa de Jesus.
Busquemos então os remédios para este mal antes de morrer. Queridíssimos, dirijamo-nos ao evangelho da verdadeira lei de Deus, o Cristo, e o ouviremos dizer: "Não condenem para não ser condenados, perdoem e serão perdoados (Luc. 6,37). Se não perdoas, tampouco serás perdoado. Se estás em guerra com teu irmão, prepara-te para o castigo por tuas culpas, tuas transgressões, tuas fornicações realizadas ocultamente, tuas mentiras, tuas palavras obscenas, teus maus pensamentos, tua avareza, tuas más ações que renderás conta ao tribunal de Cristo, quando todas as criaturas de Deus te contemplarão e todos os anjos do exército angélico estarão presentes com suas espadas desembainhadas, obrigando-te a justificar-te e a confessar teus pecados; e teus vestidos estarão todos manchados e tua boca permanecerá cerrada; estarás aterrado sem ter nada que dizer! Desventurado, de quantas coisas deverás render contas? Impurezas inumeráveis, que são como um câncer para tua alma, desejos dos olhos, maus pensamentos que entristecem ao Espírito e afligem a alma, palavras inconvenientes, língua fanfarrona que mancha todo o corpo, brincadeiras, más diversões, maledicências, ciúmes, ódios, burlas, ofensas contra a imagem de Deus, condenações, desejos do ventre que te excluíram dos bens do paraíso, paixões, blasfêmias que são vergonhosas de mencionar, maus pensamentos contra a imagem de Deus, cólera, disputas, obscenidades, arrogância dos olhos, desejos perversos, falta de respeito, vaidades. Sobretudo isto serás interrogado, porque lutaste com teu irmão e não resolveste o pleito, como deverias, no amor de Deus. Nunca ouviste dizer que "a caridade cobre uma multidão de pecados" (1Prov. 4,8)? "E seu Pai que está nos céus fará com você ou mesmo se não se perdoam mutuamente em seus corações" (Mat. 18,35). Seu Pai que está nos céus não lhes perdoará seus pecados.
Eis aqui, queridos meus, que vós sabeis que estamos revestidos de Cristo, bom e amigo dos homens. Não nos despojemos de Cristo por causa de nossas más obras. Temos prometido a pureza a Deus, temos prometido a vida monástica, cumpramos as obras que são: jejum, oração incessante, a pureza de corpo e a pureza de coração. Se temos prometido a Deus a pureza, não nos ocorra que sejamos surpreendidos na fornicação, a qual assume formas variadas. Se há dito, com efeito: "Se prostituíram de múltiplas formas" (Ez 16,25). Meus irmãos, que não nos surpreendam em obras deste gênero, que não nos encontrem inferiores a todos os homens!
Temos prometido a nós mesmos ser discípulos de Cristo; mortifiquemo-nos, porque a mortificação maltrata a impureza. Esta é a hora da luta. Não nos retiremos, pelo temor de suceder escravos do pecado. Temos sido constituídos luz do mundo; que nada se escandalize por causa nossa. Revistamo-nos de silêncio, pois muitos, com efeito, lhe devem sua salvação.
Velem sobre vós mesmos, irmãos! Não sejamos exigentes entre nós, por temor a que o sejam conosco na hora do castigo. A nós, virgens, monges, anacoretas, certamente se nos dirá: "Dá-me o meu com os interesses". Nos increparão e nos dirão: "Onde está o vestido de bodas? Onde está a luz das lâmpadas? Se és meu filho, onde está minha glória? Se és meu servo, onde está o temor a mim? (Mal. 1,6). Se me odiaste neste mundo, agora aparta-te de mim porque não te conheço (Mat. 7,23). Se odiaste a teu irmão, te fizeste estranho a meu reino. Se estiveste em lutas com teu irmão e não o perdoaste, te ataram as mãos atrás das costas, te ataram os pés e te arrojaram às trevas exteriores, onde haverá prantos e ranger de dentes (Mat. 22,13). Se golpeaste a teu irmão, serás entregue aos anjos sem piedade e serás fustigado com o flagelo das chamas eternamente. Não tivestes respeito por minha imagem, me insultando, me despreciastes e desonrastes, por isso eu não terei respeito por ti na aflição de tua angústia. Não fizestes as pazes com teu irmão neste mundo, eu não estarei contigo no dia do grande juízo. Insultastes o pobre; é a mim a quem insultastes. Golpeastes ao desgraçado; assim te fizeste cúmplice de quem me golpeou em minha humilhação sobre a cruz. Acaso te deixei faltar alguma coisa desde minha saída do mundo? Não te fiz o dom de meu corpo e de meu sangue como alimento da vida? Não padeci a morte por tua causa, a fim de salvar-te? Não te manifestei o mistério celestial, para fazer de ti meu irmão e meu amigo? Não te dei o poder de pisar serpentes e escorpiões e todo poder sobre o inimigo (Luc. 10,19)? Não te dei múltiplos remédios de vida com os quais podes salvar-te: meus portentos, meus signos, meus milagres, com os quais me revesti no mundo como com uma armadura de guerra? Te dei para que te cinjas e derrotes a Golias, quer dizer o diabo. Que coisa te falta agora, por que me converteste num estranho? Só tua negligência te precipita no abismo infernal!"
Filho meu, estas coisas e outras piores nos dirão se somos negligentes e não obedecemos (o mandamento) de perdoar-nos mutuamente. Vigiemos sobre nós mesmos e quais são as potestades de Deus, que virão em nosso auxílio no dia da morte; aquelas que nos guiarão em meio da dura e terrível guerra, aquelas que farão ressurgir nossas almas de entre os mortos.
Se nos deram, diante de tudo, a fé e a ciência para expulsar de nós mesmos a incredulidade, se nos deram, depois, a sabedoria e a prudência para discernir os pensamentos do diabo, fugir e detestá-los. Se nos predicou o jejum, a oração, a temperança, que outorgam a calma ao corpo e a quietude às paixões. Se nos deram a pureza e a vigilância, graças às quais Deus habitará em nós. Se nos deram a paciência e a mansidão. Se custodiamos todas, herdaremos a glória de Deus.
Se nos deram a caridade e a paz, poderosas na luta, o inimigo, com efeito, não se acerca do lugar onde se encontram estas. Respeito à alegria, se nos ordenou combater com ela a tristeza. Se nos deram a generosidade e a disposição para o serviço. Se nos deram a santa oração e a perseverança que cumulam de luz a alma. Se nos deram a modéstia e a simplicidade, que desarmam a maldade. Foi escrito para nós que devemos abster-nos de julgar, para vencer a mentira, perverso vício que está no homem, porque se não julgarmos não seremos julgados no dia do juízo. Se nos deram a paciência para afrontar o sofrimento e as injustiças, para que não nos oprima o desalento.
Nossos pais transcorreram suas vidas na fome, na sede e em inumeráveis mortificações, até conquistar a pureza, sobretudo, fugido do hábito do vinho, que nos cumula de todos os males. As perturbações, os tumultos e as desordens em nossos membros são causados pelo abuso do vinho. Esta é uma paixão cheia de pecados; é a esterilidade e a podridão dos frutos. A insaciável voluptuosidade escurece o entendimento, torna impúdica a consciência e rompe o freio da língua. Existe alegria plena quando não se entristece ao Espírito Santo e não está atordoada a vontade. "O sacerdote e o profeta" - está escrito - "foram atordoados pelo vinho" (Is. 28,7). O vinho é licencioso, insolente a ebriedade. Quem se abandona a ele não estará limpo de pecado (Prov. 20,1). Coisa boa é o vinho, se bebido com moderação. "Se voltas teus olhos às taças e aos cálices, caminharás desnudo como um néscio" (Prov. 23,31). O que se haja preparado para fazer-se discípulo de Jesus, que se abstenha do vinho e da ebriedade.
Nossos pais, conhecendo quantos males provêm do vinho, se bastaram. Bebiam pouquíssimo, em caso de enfermidade. E se lhe foi concedido um pouco a Timóteo, esse grande trabalhador, isso sucedeu porque seu corpo estava cheio de enfermidades. Porém, a quem ferve de vícios na flor da juventude, em quem se acumulam as impurezas das paixões, que lhe direi? Tenho medo de dizer-lhe que não beba (vinho) por temor de que algum, depreciando a própria salvação, murmure contra mim. Em nossos dias, com efeito, para muitos, esta linguagem é dura. Ademais, queridos meus, é bom vigiar e é útil mortificar-se, porque quem se mortifica colocará num lugar seguro sua nave, no bom e santo porto da salvação, e saciará dos bens do céu.
Porém, o que é todavia maior que tudo isto: nos foi dada a humildade; ela vela sobre todas as outras virtudes, tal é a grande e santa força da qual se revestiu Deus quando veio ao mundo. A humildade é o baluarte das virtudes, o tesouro das obras, a armadura da salvação, o remédio para toda ferida. Depois de haver fabricado as telas finas, os ornamentos preciosos e todos os adornos para o tabernáculo, o revestiu com uma tela de silício. A humildade é coisa mínima diante dos homens, porém, preciosa e estimada diante de Deus. Se a adquirimos pisaremos todo o poder do inimigo (Luc. 10,19). Está escrito, com efeito: "A quem olharei, senão ao humilde e ao manso?" (Is. 66,2).
Não concedamos repouso a nosso coração neste tempo de carestia, porque se multiplicada a jactância e a vaidade, se multiplica a avidez, reina a fornicação por causa da fartura da carne, prevalece o orgulho. Os jovens não obedecem mais aos anciãos, os anciãos não se preocupam mais pelos jovens, cada um caminha segundo os desejos de seu coração. Este é o tempo de gritar como o profeta: "Ai de mim, ó alma minha! O homem que teme a Deus desapareceu da terra e o que é reto entre os homens não vive mais segundo o Cristo; cada um oprime a seu próximo" (Miq. 7,1-2).
Queridíssimos meus, lutem porque o tempo está próximo e os dias se reduziram. Já não há um pai que ensine a seus filhos, não há um filho que obedeça a seu pai, desapareceram as virgens retas; os santos padres morreram. Desapareceram mães e viúvas. Chegamos a ser como órfãos; se pisa sobre os humildes e se golpeia a cabeça dos pobres. Por isto, mais um pouco e se verá a ira de Deus, e estaremos na aflição sem que haja nada para consolar-nos. Tudo isto nos sucedeu porque não quisemos mortificar-nos.
Queridos meus, lutemos para receber a coroa que foi preparada. O trono está listo, a porta do reino está aberta; ao vencedor darei o maná escondido. Se lutamos e vencemos as paixões, reinaremos para sempre; porém, se somos vencidos, teremos remorsos e choraremos com lágrimas amargas. Combatamo-nos a nós mesmos enquanto está a nosso alcance a penitência. Revistamo-nos com a mortificação e assim nos renovaremos na pureza. Amemos aos homens e seremos amigos de Jesus, amigo dos homens.
Prometemos a Deus a vida monástica, a caridade, a virgindade; porém, não só do corpo, e sim aquela virgindade que é (escudo) contra todo pecado. No evangelho, com efeito, algumas virgens foram rechaçadas por causa de sua preguiça; aquelas, em troca, que vigiavam valorosamente entraram na sala de bodas. Que cada um de nós possa entrar nesse lugar para sempre!
O amor ao dinheiro, por sua causa somos combatidos. Se queres misturar riquezas, que são a isca para o anzol do pescador, sobretudo mediante a avareza ou com o comércio, ou bem com a violência ou com o engano, ou com um trabalho excessivo, ao extremo de não ter tempo para servir a Deus, ou por qualquer outro meio; se desejou misturar ouro e prata, recorda aquilo que se diz no evangelho: "Insensato! Esta noite te será quitada a vida e aquele que foi encolerizado para quem será?" (Luc. 12,20). E também: "Amontoa tesouros, sem saber para quem os amontoa" (Sal. 38,7).
Luta, querido meu, combate contra as paixões e diga: "Farei como Abraão, levantarei minhas mãos até o Deus Altíssimo, que criou o céu e a terra (para testemunhar) que não tomarei nada do que é teu, nem um filho, nem a correia de uma sandália" (Gen. 14,22-23); são bens essenciais para um humilde estrangeiro. E (diga também): "O Senhor ama ao prosélito, para provê-lo de pão e vestimenta" (Deut. 10,18). Igualmente a propósito da preguiça, por causa da qual se nos combate: "Acumula riquezas em vistas à esmola e para os necessitados" (Eclo. 18,25). Recorda que está escrito: "Serão malditos teus celeiros e tudo o que eles contenham" (Deut. 28,17). A propósito do ouro e da prata, São Tiago disse: "Tua ferrugem se levantará em testemunho contra ti; a ferrugem devorará tua carne como o fogo" (Tg. 5,3); e: "É superior o homem justo que não tem ídolos" (Bar. 6,72) e vê a sua ignomínia. Purifica-te da maldição, antes que o Senhor te chame. Puseste esperança em Deus, porque está escrito: "Que seus corações sejam puros e perfeitos diante de Deus" (1Rs. 8,61).
Querido meu, te saúdo no Senhor. Na verdade puseste em Deus teu auxilio; ele te ama; caminhaste com todo o coração segundo os mandamentos de Deus. Que Deus te bendiga, que tuas fontes se tornem rios e teus rios um mar! Verdadeiramente, és carro e auriga da temperança. A lâmpada de Deus arde diante de ti, que refletes a luz secreta do Espírito e dispões tuas palavras com juízo. Que Deus te conceda a graça da força atlética dos santos, que não se encontrem ídolos em tua cidade. Que possas por teu pé sobre o colo do príncipe das trevas, ver ao generalíssimo do exército do Senhor a tua direita, submergir ao faraó e seus exércitos e fazer atravessar a teu povo o mar salgado; é dizer, esta vida. Assim seja!
Te rogo ainda não dar repouso a teu coração! Esta é a alegria dos demônios: fazer que o homem conceda repouso a seu coração e arrastá-lo à rede antes que o advirta. Não sejas negligente em aprender o temor do Senhor; cresce como as jovens plantas e agradarás a Deus, como um jovem búfalo que levanta no alto seus cornos. Seja um homem forte nas obras e palavras; não receies como os hipócritas, para que tua sorte não seja como a deles. Não perdas nem sequer um dia de tua existência, conhece que coisa dás a Deus cada dia. Vive só, como um general prudente. Discerne teu pensamento, seja que vivas na solidão, seja no meio de outros. Cada dia, em suma, julga-te a ti mesmo. É melhor, com efeito, viver no meio de um milhar de homens com toda humildade, que só, em uma guarida de hienas, com orgulho. De Ló, que vivia no meio de Sodoma, se atesta que era um excelente homem de fé. Escutamos, em troca, a respeito a Caim, com o qual não havia sobre a terra senão três seres humanos, que foi um malvado.
Agora se te propõe a luta. Examina o que te ocorre cada dia, para saber se estás no número dos nossos ou no daqueles que nos combatem. Somente a ti os demônios costumam apresentar-se por tua direita, aos demais homens se lhes aparecem pela esquerda. Também eu, em verdade, fui assaltado pela direita; me levaram ao diabo atado como um asno selvagem, porém, o Senhor me socorreu; eu não confiei neles e não lhes entreguei meu coração. Muitas vezes fui tentado por insídias diabólicas a minha direita, e (o diabo) se pós a caminhar diante de mim. Se atreveu inclusive a tentar ao Senhor, porém, este o fez desaparecer junto com seus enganos.
Filho meu, revista-te de humildade, toma como conselheiros teus a Cristo e a seu Pai bom; seja amigo de um homem de Deus, que tenha a lei de Deus em seu coração, seja como um pobre que leva sua cruz e ama as lágrimas. Permanece de lástima também tu, com um sudário na cabeça. Que tua cela seja para ti uma tumba, até que Deus te ressuscite e te dê a coroa da vitória.
Se alguma vez chegas a litigar com um irmão que te fez sofrer com uma palavra sua, ou se teu coração fere a um irmão dizendo-lhe: "Não mereces isto", ou bem se o inimigo te insinua contra alguém: "Não merece essas louvações", se recebes a sugestão ou o pensamento do diabo; se cresce a hostilidade de teu pensamento; se estas em disputa com teu irmão, sabendo que não há bálsamo em Galaad, nem médico na velhice (Jer. 8,22), refugia-te em seguida na solidão com a consciência em Deus, chora a sós com Cristo e ele, o Espírito de Jesus, falará a teu entendimento e te convencerá da plenitude do andamento. Por que deves lutar só, igual a uma fera selvagem, como se este veneno estivesse dentro de ti?
Pensa que tu também caiu amiúde. Não escutaste dizer o Cristo: "Perdoa a teu irmão setenta vezes sete" (Mat. 18,22)? Não derramaste lágrimas muitas vezes suplicando: "Perdoa-me meus inumeráveis pecados" (Sal. 24,18)? Se tu exiges o pouco que teu irmão te deve, em seguida o Espírito de Deus põe diante de ti o juízo e o temor de seus castigos. Recorda que os santos foram considerados dignos de ser ultrajados. Recorda que Cristo foi esbofeteado, insultado e crucificado por tua causa; e ele acumulará imediatamente teu coração com a misericórdia e o temor; então te prostrarás em terra chorando, e dizendo: "Perdoa-me, Senhor, porque fiz sofrer a tua imagem". Imediatamente te levantarás com o consolo do arrependimento e te arrojarás aos pés de teu irmão com o coração aberto, com o rosto radiante, o sorriso sobre os lábios, irradiando paz e, sorrindo, pedirás a teu irmão: "Perdoa-me, irmão meu, por haver feito sofrer". Que abundem tuas lágrimas; depois das lágrimas vem uma grande alegria. Que a paz exulte entre vocês dois e o Espírito de Deus, por sua parte, se gozará e exclamará: "Ditosos os pacíficos porque serão chamados filhos de Deus" (Mat. 5,9). Quando o inimigo ouve o som desta voz, fica confundido, Deus é glorificado e sobre ti desce uma grande benção.
Irmão meu, este é o tempo de fazer-nos a guerra a nós mesmos; tu sabes que por todas partes se levantam as trevas. As Igrejas estão repletas de litigantes e excitados, as comunidades monásticas se tornam ambiciosas, reina o orgulho. Não há ninguém que se ponha a servir ao próximo: em troca, todos oprimem a seu próximo (Miq. 7,2). Estamos imersos na dor. Não há mais profeta nem sábio. Não há nenhum que possa convencer a outro, porque abunda a dureza de coração. Quem compreende permanece em silêncio pois os tempos são maus. Cada um é senhor de si mesmo, se deprecia o que não se deveria depreciar.
Agora, irmão meu, vive em paz com teu irmão. E reza também por mim, porque não posso fazer nada, e sim que estou atribulado por meus desejos. Vigia sobre ti em todas as coisas, esforça-te, cumpre tua obra de pregador. Permanece firme na prova, leva a termo o combate da vida monástica com humildade, paciência e temor ante as palavras que escutarás. Custodia a virgindade, evita os excessos e essas abomináveis palavras pouco oportunas; não te alijes dos escritos dos santos, e sim que seja firme na fé de Cristo Jesus nosso Senhor. A ele seja a glória, a seu bom Pai e ao Espírito Santo!
Assim seja! Abençoa-nos!
IGREJA ORTODOXA DA DIÁSPORA GREGA NO BRASIL
COMUNIDADE MONÁSTICA SÃO JOÃO CRISÓSTOMO
MONASTÉRIO SÃO JOÃO CRISÓSTOMO
CONSTITUIÇÃO
CAPÍTULO I
Origem, Missão, Nome, Siglas e Emblemas
Art. 1.º- Jesus Cristo é o Princípio e o Fim de todas as coisas, Nele tudo existe e deixa de existir; Ele é o que é que era, e que há de vir, a Fiel Testemunha, o Primogênito dos mortos e o Príncipe dos reis da Terra. Aquele que nos ama, e pelo seu sangue nos libertou dos nossos pecados e nos fez reino e sacerdotes para Deus, seu Pai; que selecionou uns como Apóstolos e outros como Profetas, e outros como Evangelistas, e outros como Pastores e Mestres, e outros como Testemunhas em Jerusalém, em toda a Judéia e Samaria, e até as extremidades da Terra.
Art. 2.º- Jesus Cristo é o grande selecionador de missionários e Ele mesmo diz: Vós não me escolhestes a mim, mas eu vos escolhi a vós, e vos designei para que vades e deis fruto, e o vosso fruto permaneça, a fim de que tudo quando pedirdes ao Pai em meu nome, Ele vo-lo conceda. Vós sois meus amigos, se fizerdes o que eu vos mando. Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas chamei-vos amigos, porque tudo quanto ouvi de meu Pai vos dei a conhecer. Eis que vos envio como ovelhas ao meio de lobos; portanto, sedes prudentes como as serpentes e simples como as pombas.
Art. 3.º- Quanto ao fazermos as obras que Ele fez, Jesus disse: Em verdade, em verdade vos vos digo: Aquele que crê em mim, esse também fará as obras que eu faço, e as fará maiores do que estas; porque eu vou para o Pai; e tudo quanto pedirdes em meu nome Eu o farei, para que o Pai seja glorificado no Filho.
Art. 4.º- Os missionários servirão ao Reino de Deus e de Cristo anunciando Jesus, o Salvador, a todos os homens, especialmente aos pobres, órfãos e necessitados, cuja evangelização é sinal da missão divina de Jesus de Nazaré (Isaías 61: 01-11)
Art. 5.º- A Comunidade Monástica São João Crisóstomo é um Instituto Ortodoxo Teológico e Pastoral de Direito Eclesiástico Canônico, composto de religiosos – clérigos e leigos, e tem por finalidade a glória de Deus e a santificação de seus membros, pelo serviço de construção do Reino, como missionários e evangelizadores, fundados em 31 de agosto de 1988, pelo missionário da 1.ª Ordem Apostólica dos Jesuítas Católicos Ortodoxos, irmão leigo de 1988, pelo missionário da 1.ª Ordem Apostólica dos Jesuítas Católicos Ortodoxos, Raimundo Bezerra Alves, também seu fundador.
Art. 6.º- Nosso nome é: Comunidade Monástica São João Crisóstomo. Por tradição: Ordem de Monges Crisostomitas. A semântica do nosso nome está na comunhão fraterna e partilhada de nossos irmãos, no partir do pão, na assistência ao idoso, aos doentes, em levar o consolo da Palavra com boca de ouro, tendo todas as coisas em comum no caminhar em missão com Jesus Cristo; como missionários do Reino, marcados pelo modelo dos Atos dos Apóstolos capítulo dois, versículos quarenta e um a quarenta e sete; e capítulo quatro, versículos trinta e dois a trinta e cinco.
Art. 7.º- A Comunidade Monástica São João Crisóstomo tem como siglas: CMSJC e como Instituto Superior Teológico e Pastoral – ISTEP, como Sede da Eparquia (Diocese) do Brasil à Rua 15, N.º 15, Conjunto Industrial em Fortaleza – Ceará - Brasil.
Art. 8.º- A nossa Comunidade - Mosteiro tem o seguinte emblema: mãos abertas, soltando uma pombinha branca, conduzindo duas alianças no bico no globo terrestre; tendo como significado: as mãos de Deus enviando o Espírito Santo para selar sua Noiva tirando-a do mundo para o seu Reino em Nova Jerusalém - Orionópolis Salém.
CAPÍTULO II
Carisma e Fé
Art. 9.º- A nossa Comunidade Monástica se caracteriza por vivenciar os dons do Espírito Santo no desempenho da vocação missionária em evangelizar todas as pessoas, penetrando às estruturas sociais em suas culturas, fontes inspiradoras dos modelos de vida sócio-político-econômica. Para isso a Comunidade desempenhará sua missão carismática de anúncio de Jesus e seu Reino, formando e organizando comunidades missionárias em meio ao povo, fiéis leigos, em sacerdócio comum dos fiéis não - ordenados no ministério pastoral.
Art. 10.º- Nossa espiritualidade é missionária – carismático - crisostomita. Ela é inspirada e alimentada no seguimento de Jesus Cristo, o missionário do Pai, e na contemplação de seu mistério eucarístico, à imitação de São João Crisóstomo. A Comunidade de Monges Crisostomitas por ser carismática aspira a ser uma fraternidade: “somos um só corpo os que participamos de um mesmo Espírito que opera tudo em todas as coisas.” Entre nós não pode haver classes, divisões, discriminações. Enquanto religiosos seculares e cenobitas, somos todos irmãos.
Art. 11. – As fontes em que nossa Comunidade deseja inspirar-se são: a vida evangélica de Jesus e seus Apóstolos; a inspiração missionária de São João Crisóstomo e São Bento de Núsia e São Basílio, na contemplação da Teothokos, Mãe de Deus e na fidelidade da Igreja, as necessidades reais do povo, que exigem uma permanente renovação da Comunidade – Mosteiro, dentro da fidelidade ao “patrimônio.” Desse modo o Pai renova em nós o Dom do Espírito (Karisma) dado ao monge missionário, esperando que o mantenhamos vivo e capaz de impulsionar nossa ação na Igreja e no mundo, no exercício do Amor e Fé.
Art. 12. – O justo viverá da Fé. O missionário crisostomita deve cuidar de seu crescimento na fé, na oração, tudo pedindo com fé, sem sentir a menor dúvida, pois aquele que duvida assemelha-se a alguém, que é jogado como ondas do mar, pelo vento a um lado e outro. Não pense essa pessoa que o Senhor dará o que quer que seja a um homem que esteja dividido e indeciso em todo o seu modo de proceder. Nada receberá. Ora, sem a Fé, é impossível agrada Deus, pois quem se aproxima de Deus, deve crer que Ele existe e recompensa os que o procuram. Deus, o Pai, não desaponta àquele que Nele confia.
CAPÍTULO III
Vida Religiosa
Art. 13. - A Vida Religiosa é um compromisso assumido na Igreja, do filho de Deus com o Espírito Santo numa forma estável de vida, que surgiu como um caminho de vivência radical do Evangelho, tendo por missão, desde sua origem, acordar a consciência dos cristãos e ser a memória da Igreja.
Art. 14. – A Vida Religiosa é um estado de consagração, em reserva incondicional para Deus, Amado acima de todas as coisas. O Cristão Consagrado é alguém que faz profissão pública de colocar DEUS como o ABSOLUTO da sua vida, e de se entregar a Ele de maneira incondicional.
Art. 15. – A Sagração Religiosa implica numa dupla dimensão de vida, complementar e inseparável: exclusividade com Jesus Cristo e missão em nome de Deus, o Pai. Quando Jesus Cristo convida e consagra pessoas, Ele as reserva para si e, com mais profundidade as envia em missão divina, no Espírito Santo, ao mundo.
Art. 16. – Uma vida consagrada, totalmente a Deus, significa seguir Jesus Cristo, numa verdadeira mística que implica identificação com suas atitudes e compromissos, andando como Ele andou, vivendo como Ele viveu e pensando em Deus. Jesus Cristo é o protótipo da consagração do religioso a Deus. Quando o Pai chama alguém para receber a Unçãoe ser Enviado, não faz outra coisa, senão, repetir o que fez de forma exemplar com o seu próprio Filho. Jesus é quem convida àqueles que se sentem vocacionados, a viver uma vida de exclusividade e continência por causa do Reino. E a resposta do novo escolhido deve modelar-se na resposta de Jesus, pois segui-Lo, significa, essencialmente, renunciar a tudo por causa do Reino, comprometendo-se em espírito, corpo e alma.
Art. 17. – Aos que aceitam o chamado e quer viver, voluntariamente, uma vida compromissada com a causa do Reino de Deus, Jesus Cristo faz duras exigências como fizera antes aos seus discípulos: rompimento de todas as ligações humanas. O Discípulo deve deixar... Casa, mulher, irmãos, pais, filhos por amor do Reino de Deus... (Lucas 18: 29); pois Jesus disse: Se alguém vier a mim, e não aborrecer a pai e mãe, a mulher e filhos, a irmãos e irmãs, e ainda também a própria vida, não pode ser meu discípulo. Quem não leva a sua cruz e não me segue, não pode ser meu discípulo. (Lucas 14: 26,27).
Art. 18 - O fundamento da vida monástica são as palavras do nosso Salvador Jesus Cristo: “Se queres ser perfeito, vai vende os teus bens e dá aos pobres, e terás um tesouro nos céus. Depois vem e segue-me” (Mt 19,21).A renúncia ao mundo pelo monge demarca a dinâmica oposição a todo mal e pecado, que incessantemente aflige-nos o mundo circundante. Este ato não significa uma egoísta separação da realidade histórica, mas fundamentalmente influencia na sua transformação através da oração, jejum e virtudes ascéticas.
Art. 19 - A forma de comunidade monástica é a mais fiel continuação da vida dos primeiros cristãos. “Todos os que tinham abraçado a fé reuniam-se e punham tudo em comum: vendiam suas propriedades e bens, e dividiam-nos entre todos segundo as necessidades de cada um”. Dia após dia, unânimes, mostravam-se assíduos no Templo e partiam o pão pelas casas, tomando o alimento com alegria e simplicidade de coração.
Art. 20 - A comunidade monástica é a mais perfeita organização, dando as mais favoráveis condições para realização da perfeição cristã, a santificação da natureza humana na restauração da natureza divina perdida na queda. “Vede: como é bom, como é agradável habitar todos juntos, como irmãos.” (Salmo 133, 1). “Porque se caem, um levanta o outro; mas o que será de alguém que cai sem ter companheiro para levantá-lo?” (Eclesiastes 4, 10). A forma de comunidade monástica é a mais fiel continuação da vida dos primeiros cristãos.
CAPÍTULO IV
Noviciado – Condições de Comportamento dos Monges e Monjas
Art. 21 - Antes do ingresso no mosteiro o futuro noviço - noviça deve atentamente tomar conhecimento do regulamento do mosteiro. Para um adequado conhecimento da vida monástica designa-se ao noviço um tutor espiritual – pai espiritual.
Art. 22 – O noviço - noviça com todas as suas forças devem aspirar à realização plena da vida espiritual orientando-se com os ensinamentos da Igreja, dos Santos Padres e de seu pai espiritual.
Art. 23 - Em relação ao “Abade ou Abadessa” e a todos os irmãos deverá ser humilde, e ao encontrar o “Abade ou Abadessa” deverá pedir a benção, e saudar os irmãos com uma agradável inclinação.
Art. 24 - Entrar em outra cela apenas com as palavras de saudação: “Pelas orações dos nossos Santos Pais, ó Cristo nosso Deus, tem piedade de nós” e depois de ouvir a resposta: Amém!
Art. 25 - Depois das orações noturnas qualquer tipo de conversa é proibido.
Art. 26 - É devido mostrar a indispensável obediência ao “Abade ou Abadessa” e aos demais superiores do mosteiro, lembrando das palavras de Jesus Cristo: “... pois desci do céu não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou” (João 6, 38).
Art. 27 - Não é devido criticar ou modificar à sua maneira as ordens do “Abade ou Abadessa”, mas cumpri-las exatamente em humildade e oração. O noviço – noviça deverá evitar ficar sob o domínio de sua vontade e não fazer nada sem a benção dos superiores do mosteiro, mesmo coisas louváveis, uma vez que isto pode levar à independência, ao egoísmo, à altivez, ao orgulho e a outras tentações.
Art. 28 - É devido preocupar-se diligentemente com o clima de constante paz, concórdia e amor com todos no mosteiro e além dele, para com todos e em toda parte sendo benevolente e atencioso.
Art. 29 - O noviço - noviça não pode acumular em sua cela coisas dispensável. Indispensáveis são: ícones, as Sagradas Escrituras, obras dos Santos Padres, literatura religiosa útil ao coração e aos pensamentos.
Art. 30 - A pureza de todo o ser do noviço - noviça consiste não apenas na proteção de si mesmo diante de todo ato delituoso, mas antes de tudo dos pensamentos e planos impuros, como causas primárias de todo pecado e queda. É devido cuidar disto acima de tudo.
Art. 31 - O noviço – noviça sempre e em toda parte deverá preservar-se de toda loquacidade, lembrando as palavras do Salvador: “Eu vos digo que de toda palavra inútil, que os homens disserem, darão contas no Dia do Julgamento. Pois por tuas palavras serás justificado e por tuas palavras serás condenado” (Mt 12, 36-37).
Art. 32 - O noviciado dura três anos, mas pode ser abreviado.
CAPÍTULO V
Sobre a Orientação Espiritual
Art. 33 - A orientação espiritual no mosteiro é conduzida pelo “Abade ou Abadessa” e pelo confessor.
Art. 34 - Para a orientação do noviço - noviça o “Abade ou Abadessa” designa um monge experiente – pai espiritual, diante do qual é devido revelar todo o seu estado espiritual, pensamentos, dúvidas, confusões, dificuldades, tentações e receber dele conselhos, instruções e todo apoio espiritual.
Art. 35 - Se o “Abade ou Abadessa” punir o noviço – noviça ou irmão pela violação do regulamento, o confessor não tem o direito de liberá-los da punição sem consulta e consentimento daquele que puniu. Todos da supervisão do mosteiro devem estar de acordo com as punições: o “Abade ou Abadessa” dá a punição pela violação do regulamento, secretamente ou publicamente; o confessor, porém, secretamente pela confissão dos pecados.
Art. 36 - A mais valiosa benção no mosteiro é a recepção da Santa Eucaristia, por isso também todos os noviços - noviças e irmãos deveriam, o mais freqüentemente possível, purificar-se diante de Deus com os sacramentos da Confissão e Eucaristia. Além disso, costumeiramente, nos mosteiros, de manhã e à noite faz-se um exame de consciência junto a seu pai espiritual.
Art. 37 - Sem a benção do “Abade ou Abadessa” ou do pai espiritual os noviços - noviças e monges - monjas não devem empreender nada na obra de salvação segundo seus próprios pensamentos e vontade, por exemplo, através da imposição a si mesmo de jejum adicional ou de tarefas acima do regulamento estabelecido, porque se caem, então, em pernicioso orgulho, altivez e auto-satisfação, mais prejudicando que contribuindo para a sua salvação.
Art. 38 - Se, entre os monges – monjas do mosteiro ocorrer desentendimentos, é devido sem demora dirigir-se mutuamente com pedido de perdão, com humildade, amor e alegre harmonia lembrando as palavras do apóstolo Paulo aos Efésios (Ef. 4: 26): “Irai-vos, mas não pequeis: não se ponha o sol sobre a vossa ira, nem deis lugar ao diabo”.
Art. 39 - Os noviços - noviças e os monges - monjas, que transgredirem a disciplina do mosteiro devem receber punição, para a qual não se deve olhar como um impiedoso e injusto “chicote”, mas como um remédio indispensável, amargo como sempre, que cura toda doença espiritual e tormentos.
Art. 40 - Se os doentes consideram os médicos como benfeitores, que durante o tratamento não alimentam ninguém com doces, assim os infratores no mosteiro analogamente devem olhar a punição, aceitando-a como meio imprescindível e curativo e sinal de misericórdia para a salvação da alma (São Basílio, o Grande, regra 52).
Art. 41 - No processo de correção espiritual podem ser usados diferentes meios como: metanóias, cânones de orações adicionais, tarefas e trabalhos mais difíceis e adicionais, revogação da permissão de saída do mosteiro, retirada dos hábitos monásticos.
Art. 42 - Todos os que fizeram os votos monásticos, prometendo ao Salvador fidelidade até a morte, devem incessantemente e em cada circunstância preocupar-se que este santo vínculo com Deus estreite-se até o momento final, uma vez que Cristo relembra e adverte: “Quem põe a mão no arado e olha para trás não é apto para herdar o Reino de Deus” (Lc 9: 62).
CAPÍTULO VI
Sobre o Comportamento na Igreja
Art. 43 – Continua...
As Origens do Monaquismo Cristão
A questão das origens do monaquismo cristão é uma das que voltam periodicamente. Sem dúvida porque se trata de uma questão à qual não se pode oferecer uma resposta totalmente satisfatória, e novas descobertas em muitas disciplinas correlatas a colocam sem cessar de um modo diferente.
Pelo final do século XIX, no momento em que se desenvolvia o estudo comparado das religiões, pesquisadores alemães liderados por H. Weingarten pensaram que a origem do monaquismo cristão podia se explicar por uma evolução a partir da velha religião egípcia. O monge cristão continuaria a tradição dos reclusos (katochoi) do templo de Serápis. Foi relativamente fácil aos historiadores católicos demonstrar o caráter nitidamente cristão do monaquismo egípcio primitivo e de fazer ver que nenhuma dependência podia ser demonstrada em relação aos cultos pagãos. Enquanto por longo tempo os estudos neste tema se concentravam sobre a história das práticas ascéticas, o estudo de Peter Nagel sobre as motivações destas práticas em 1966, marcou uma reviravolta.
Estas discussões ocasionaram um renovado interesse pelas fontes literárias do monaquismo primitivo. Monges e monjas reaprenderam a buscar seu alimento espiritual naquilo que se começou a denominar de "Fontes monásticas", isto é, as obras do monaquismo antigo, em particular os "Apofetgmas", as Vidas de Antão e de Pacômio, sem esquecer seguramente Cassiano, que havia servido de traço de união entre o Oriente e o Ocidente.
Na onda de renovação dos estudos bíblicos e patrísticos do após-guerra, muitas boas edições críticas sobre o monaquismo antigo foram publicadas, obras estas pouco conhecidas ou de que não se dispunha ainda de edições antigas de acordo com os ditames da ciência contemporânea. Estas edições suscitaram por sua vez a aplicação da crítica textual, histórica e literária a estes escritos que só tinham até este momento servido como alimento para a "leitura espiritual". A questão das origens do monaquismo voltou, pois, a ser colocada de outro modo.
Com efeito, o mito do Egito como "berço do monaquismo", de onde teria em seguida se expandido para os outros países do Oriente inicialmente, e depois para o Ocidente, não podia mais ser mantido. Tornava-se evidente que o monaquismo havia nascido um pouco em toda parte ao mesmo tempo, sob formas muito variadas, e da vitalidade própria de cada Igreja local, no Oriente como no Ocidente. O esquema clássico de Antão e alguns outros eremitas fugindo para o deserto, antes que Pacômio inventasse o cenobitismo para remediar os inconvenientes do eremitismo, não correspondia a nenhuma realidade tal como revelada pelos documentos publicados. Descobria-se que desde suas primeiras manifestações, o monaquismo havia aparecido simultaneamente em todas as suas formas mais diversas: cenobitismo e eremitismo, monaquismo do deserto e monaquismo das cidades, etc.
Um outro mito que não resistiu mais à crítica histórica (mesmo se continua a resistir) é aquele segundo o qual o monaquismo teria nascido após o Edito de Constantino, ou em todo caso, depois da era das perseguições. Por um lado, cristãos ferventes que desejavam o martírio que não estava mais ao seu alcance desejavam fazê-lo através da ascese, e por outro lado, teriam se retirado ao deserto em reação contra uma Igreja cujo fervor diminuía. Uma tal visão das coisas não tinha nenhum fundamento nem na realidade, nem nos documentos históricos que tendiam mais a mostrar a expansão do monaquismo como o fruto do fervor da Igreja que resultava do testemunho corajoso dos mártires.
Os estudos de Anton Vööbus, e, sobretudo sua obra monumental sobre o ascetismo cristão na Pérsia, Mesopotâmia e Síria, mostrava, pelo ano 1960, à comunidade científica todo um mundo "monástico" até ali desconhecido salvo de alguns especialistas. Mas poder-se-ia falar de monaquismo a propósito dos Filhos e Filhas do pacto conhecidos por Efrém e Afraat em Nisibe e em Edessa e das numerosas formas de ascese muito radicais que tinham conhecido as Igrejas judeu-cristãs muito antes de Antão e Pacômio? Como fosse difícil ir contra a convenção bem estabelecida pelos historiadores que remontavam o "monaquismo propriamente dito" ao final do século terceiro, começou-se a falar de um "pré-monaquismo".
Dom J. Gribomont, num artigo extremamente importante, que era de fato uma recensão da obra de Vööbus mostrou bem a estreita ligação entre este pré-monaquismo e o monaquismo. Ora, o que se tornava cada vez mais claro era que não havia descontinuidade entre os dois e que ninguém podia distingui-los nitidamente entre si.
Pela mesma época, ou mesmo um pouco antes, Daniélou e outros se interessaram pelo judeu-cristianismo Parecia claro que foi nas Igrejas judeu-cristãs que se manifestou em todo seu rigor a corrente ascética ao longo dos três primeiros séculos cristãos. Sob este ponto de vista, não é por acaso que a tradição monástica tenha se desenvolvido de modo particular no Egito.
Em Alexandria, à época de Cristo, achava-se a diáspora judaica mais numerosa. Esta comunidade judaica era particularmente aberta a todas as tendências filosóficas e teológicas. Dois eminentes representantes deste judaísmo alexandrino, Filon e Plotino, tiveram uma influência marcante sobre toda a tradição mística cristã e, através de Orígenes e de Evágrio, sobre o monaquismo cristão, Uma comunidade cristã se formou em Alexandria imediatamente após o Pentecostes. Foi neste contexto muito rico que se desenvolveu a Escola de Alexandria com Panteno e Clemente, antes que Orígenes aí vivesse com seus discípulos um tipo de existência que só as convenções dos historiadores nos impedem de qualificar de "monástica". A obra recente de Samuel Rubenson mostrou que Antão e seus companheiros, longe de serem iletrados como se pensou por muito tempo, foram alimentados com o ensinamento filosófico e teológico da Igreja e Alexandria e de seus grandes doutores.
Os Essênios e os Terapeutas conhecidos pelo historiador Flávio Josefo e por Filon haviam vivido no Egito dois séculos antes de Antão e de Pacômio. Não é, pois, de se surpreender que depois da publicação dos documentos de Qumrân e, sobretudo da Regra da Comunidade, descrevendo um gênero de vida monástica muito semelhante nas suas expressões exteriores ao dos monges cristãos, a questão das origens do monaquismo foi de novo colocada. Não seria o monaquismo cristão a continuação do monaquismo essênio? Ou ainda, os primeiros monges cristãos não teriam sido monges essênios convertidos ao Cristianismo? A estas questões timidamente colocadas, respondeu-se que as motivações espirituais do monaquismo cristão eram radicalmente diferentes daquelas dos Essênios - o que era bastante claro e que havia, de toda maneira, um hiato de alguns séculos entre o desaparecimento dos Essênios e o que se convencionou considerar como "os primórdios" do monaquismo cristão, pelo fim do século III no Egito. A resposta era verdadeira, mas nem tudo estava dito.
Nos mesmos anos em que foram descobertos os manuscritos do Mar Morto, foi também achada uma biblioteca copta em Nag Hammadi, no Alto Egito, sobre o lugar de um dos primeiros mosteiros pacomianos. Por diversas razões, particularmente políticas, a publicação destes documentos só começou vários anos mais tarde. A questão das relações entre estes manuscritos e o mosteiro de Pacômio permanece obscura, mas o fato é que os milhares de estudos que esta biblioteca copta, da qual a maioria das obras é gnóstica sob diversos títulos, nos trouxeram uma quantidade inestimável de novos conhecimentos sobre o contexto religioso do Egito durante os séculos que precederam o de Antão e de Pacômio e os primeiros monges dos Desertos da Nitria, Sceta e des Kellia.
Paralelamente, os estudos maniqueus faziam pela mesma época progressos enormes. Depois da descoberta de importantes manuscritos no Xinjiang na China, no início do século e depois no Fayoum em 1930, aquele do Codex Mani de Colônia em 1970 trouxe novas luzes sobre esta grande corrente religiosa, também muito viva no Egito na mesma época e que havia conhecido sua própria forma de vida comunitária que muitos não hesitam em qualificar como monástica. E, sobretudo, descobriu-se que Mani provinha de uma seita judeu-cristã.
Todos estes dados novos tinham levado os historiadores do monaquismo cristão a reconsiderar as teorias tradicionais sobre suas origens tomando em consideração este novo conhecimento do contexto religioso e cultural no qual havia se desenvolvido.
Mas isto pouco impacto teve, exceto alguns breves, mas excelentes estudos de Antoine Guillaumont reunidos num pequeno volume intitulado As Origens do monaquismo cristão. Infelizmente os historiadores do monaquismo e os especialistas das correntes religiosas acima citadas continuaram - e ainda continuam - em seu conjunto seus estudos em paralelo.
Ora, a questão das origens do monaquismo foi alvo de um novo revés. E isto ocorreu quando um especialista na Antiguidade tardia, o Professor Peter Brown, numa série de estudos, a começar pelo bem conhecido, nos habituou a considerar os fenômenos da ascese cristã num contexto muito mais amplo. O propósito de Peter Brown era muito mais extenso do que a questão das origens do monaquismo, mas seu modo de situar os principais "atores" do monaquismo antigo, cada um no seu meio próprio, se mostrou muito rico e, quer se queira ou não, mudou nosso modo de ver a história monástica.
Vários autores recentes retomaram esta abordagem de Brown, aplicando-a mais precisamente à história do monaquismo, mas talvez com um esquema mais preciso. Em Virgins of God, Susanna Elm concentrou-se no ascetismo feminino, muitas vezes negligenciado nos estudos históricos do passado -e reuniu uma soma importante de dados novos que eram pouco conhecidos ou estavam esparsos em obras pouco acessíveis. O estudo de David Brakke sobre as relações entre a ascese egípcia e as políticas antiarianas de Atanásio são também uma mina de ensinamentos reunidos com um grande rigor científico. O problema com estas obras, que estão entre as melhores entre muitos outras publicadas nos últimos anos é este: trata-se de estudos feitos com um enorme rigor - coisa que não é sempre comum, infelizmente, nos estudos sobre o monaquismo escritos por monges - mas que ignoram, mesmo explicitamente e deliberadamente por vezes (em virtude de um a priori pós-modernista) a dimensão propriamente espiritual da vida dos monges que eles estudam.
Na esteira dos estudos de Peter Brown e de todas as descobertas mencionadas mais acima, um novo interesse se manifestou depois de vinte anos pelo ascetismo na antiguidade. Tornou-se claro que o monaquismo cristão fez parte de um fenômeno muito mais geral que é o da ascese cristã, e esta não pode ser estudada sem se remeter ao contexto mais geral da ascese humana em geral e de suas inúmeras manifestações na sociedade durante os primeiros séculos da era cristã.
Um grupo de professores e de pesquisadores foi constituído nos Estados Unidos no início dos anos 1980, no seio da American Academy of Religion para estudar o fenômeno do ascetismo sob todos os aspectos. Foi organizada uma conferência internacional em New York em 1993 com o tema: "A dimensão ascética na vida religiosa e a cultura". Uma importante coleção de comunicações feitas a esta conferência foi publicada em 1995 com o título "Asceticismo".
Se alguns destes estudos mostravam uma compreensão do monaquismo cristão, outros analisavam o fenômeno ascético sem nenhuma referência às motivações que podiam ter aqueles e aquelas que o viveram no passado e o vivem no presente. Muitos estudos parecem reinterpretar a ascese- cristã ou não à luz das teorias de Michel Foucault. Columba Stewart, monge beneditino que rompeu com os métodos das disciplinas acadêmicas, e que acaba de publicar o que permanecerá sem dúvida por muito tempo a obra "definitiva" sobre Cassiano, sublinhava recentemente a urgência de uma abordagem multidisciplinar para suprir esta necessidade. Se, por um lado, estudos com um grande rigor metodológico pecam por ignorar a dimensão propriamente espiritual do monaquismo, muitos escritos sobre a espiritualidade monástica, por outro lado, mostram falta do rigor científico que se deve esperar para os nossos dias.
Não se trata talvez de aqui considerar, nem mesmo de esboçar um estudo tal que exigisse, inicialmente, a colaboração de vários especialistas de diversas áreas. Com risco de pecar um pouco por presunção, gostaria de delinear, sem me detalhar, a visão das origens do monaquismo cristão primitivo que me parecem já surgir dos estudos recentes.
Raimundo Panikkar falava do monaquismo como "arquétipo humano", assim sublinhando o fato de que existe uma dimensão monástica em todo ser humano e que aqueles que chamamos "monges" são os que organizam toda sua vida em torno desta dimensão profundamente humana. É isto que explica que a presença do monaquismo seja achada em quase todas as grandes tradições religiosas da humanidade cada vez que elas atingem um nível suficiente de espiritualização. De uma tradição a outra, de um século a outro, as manifestações exteriores deste ascetismo não são muito diferentes - a imaginação humana tem apesar de tudo seus limites. O que é radicalmente diferente de uma tradição espiritual a outra, é o objetivo buscado por esta ascese e a significação última que lhe é conferida.
Havia, à época de Cristo, em toda a região que agora conhecemos como Oriente Médio, e particularmente no judaísmo tardio, uma corrente ascética e mística. João Batista, com seu batismo, situa-se nitidamente nesta corrente pelo seu estilo de vida e por sua pregação, independentemente de sua pertença ou não à seita dos essênios. Jesus se fez batizar por João e assim assumiu este movimento - um gesto do qual não se saberia sublinhar suficientemente a importância capital. E, é claro, assumindo-o, lhe deu um sentido radicalmente novo.
O próprio Jesus viveu com seus discípulos uma forma de vida comunitária que tinha muito mais em comum com esta tradição do que com as tradições dos rabinos de seu tempo, ou mesmo, com os profetas do Antigo Testamento. Eis porque a expressão "vida apostólica" na literatura monástica primitiva significará primeiramente toda esta vida dos Apóstolos com Jesus. Este último apresentava exigências extremamente radicais àqueles que desejavam segui-lo. Ou, quando, depois da morte de Jesus, certos cristãos desejaram adotar como modo permanente de vida os apelos radicais de Jesus ao celibato, à renúncia total, à pobreza, etc., tinham não só o exemplo de Jesus, mas achavam também nas formas contemporâneas de ascese, e também no arquétipo monástico no fundo de sua psique das estruturas humanas de expressão.
Um ascetismo cristão extremamente radical se desenvolveu muito depressa, em particular nas Igrejas judeu-cristãs, mais sensíveis ao radicalismo do Evangelho de Lucas e também ao papel transformador do batismo no Espírito do que as Igrejas sob a influência de Paulo. Foi a comunidade cristã toda que, em certos momentos, teve nestas Igrejas uma existência "monástica". Foi pouco a pouco que se desenhou no seio da comunidade eclesial a consciência de que nem todos eram chamados a seguir o Cristo pelo mesmo caminho e que se precisou uma via monástica distinta daquela do resto dos fiéis.
Quando se lêem os escritos dos monges cristãos do século IV, é muito claro que eles foram para o deserto ou se agrupavam nas fraternidades urbanas basilianas para seguir o Cristo e para se deixar transformar à imagem do Cristo sob a ação do Espírito Santo. Mas não se pode ignorar que segundo a própria lei da Encarnação, estava condicionados na realização de seu "projeto" pelo contexto religioso e sócio-cultural no qual eles evoluíam.
As comunidades de Terapeutas e de Essênios no Egito de que faz menção Filon de Alexandria, tinham muito em comum com as comunidades cristãs para que o historiador Sócrates, escrevendo alguns séculos mais tarde, se engane e as considere como grupamentos cristãos. Houve certamente contatos e influências mútuas entre estes grupos e as comunidades cristãs. O erro seria buscar entre uns e outros uma dependência ou continuidade histórica. Para ficarmos ainda no Egito, não se pode negar que o gnosticismo, este movimento que, ao lado de expressões aberrantes, exprimia e veiculava uma grande sede de experiência espiritual, estava muito espalhado no Egito pouco antes do grande desenvolvimento do monaquismo cristão ao final do século III. É evidente que o monaquismo cristão não deve sua origem ao gnosticismo!
Na verdade, a imagem que se desenha é a de um grande movimento espiritual que se desenvolveu no curso dos primeiros séculos de nossa era, ao mesmo tempo no cristianismo e fora dele. Este movimento comporta aspectos sublimes e também, aberrações. Há influências recíprocas entre as diversas correntes que o constituem, influências estas que correm em todas as direções. Os grupamentos de origem não cristã sofreram talvez uma forte influência do cristianismo, e certos movimentos cristãos, por outro lado, sofreram influências estrangeiras a ponto de tornar-se heresias.
O discernimento se faz pouco a pouco na Igreja através da vida e da experiência assim como pelo "sensus fidei" do povo cristão, até que a nova situação criada na Igreja constantiniana permita a realização de Sínodos onde os bispos terão a autoridade necessária para fazer a clara demarcação entre ortodoxia e heterodoxia.
Quando finalmente se desenha uma forma de vida cristã mais estruturada e reconhecida, utilizando os modos exteriores de expressões comuns aos ascetas de todos os tempos e de todas as tradições, mas exprimindo uma busca espiritual enraizada no Evangelho e vivida sob a direção do Espírito, começa-se a falar de "monaquismo". É o produto de uma longa evolução, e se está em presença do que chamaríamos hoje uma inculturação. O monaquismo cristão é, assim, a primeira, e talvez a mais bem sucedida forma de inculturação. Isto quer dizer que é o encontro da mensagem evangélica sobre a vida perfeita com uma tradição ascética várias vezes secular que exprime as aspirações mais profundas da alma humana criada à imagem de Deus. Neste encontro esta tradição humana - enraizada num arquétipo humano - é enriquecida, e aí acha sua significação última; além disto, a mensagem cristã também é enriquecida de uma forma particular de expressão. Este encontro e este enriquecimento mútuo constituem a própria natureza da inculturação.
Ao longo de toda a história do monaquismo que se desenrolará depois, os momentos de grandes desenvolvimento, de renovação ou de reforma foram aqueles onde, por ocasião de uma transformação cultural mais profunda, monges e monjas foram particularmente sensíveis às aspirações espirituais dos homens e mulheres de seu tempo e souberam dar, através de sua vida e na linha de sua tradição, respostas que foram valiosas não só para eles, mas também para seus contemporâneos. A questão das origens do monaquismo cristão jamais nos deixará, pois o monaquismo só continua a existir porque é constantemente re-engendrado.
INFORMAÇÕES COMPLEMENTARES:
Autor: George Williams de Araújo Andrade é aluno do curso de Bacharelado em Teologia pelo Instituto de Filosofia e Teologia da Arquidiocese de Olinda e Recife IFTAOR.